Apresento-vos Ary dos Santos,
Poeta português, natural de Lisboa. Saiu de casa aos 16 anos, exercendo várias actividades como meio de subsistência. Revelando-se como poeta com a obra Asas (1953), publicou, em 1963, o livro Liturgia de Sangue, a que se seguiram Azul Existe, Tempo de Lenda das Amendoeiras e Adereços, Endereços (todos de 1965). Em 1969, colaborou na campanha da Comissão Democrática Eleitoral e, mais tarde, filiou-se no Partido Comunista Português, tendo tido uma intervenção politizada, mas muito pessoal. Ficou sobretudo conhecido como autor de poemas para canções do Concurso da Canção da RTP. Os seus temas «Desfolhada» e «Tourada» saíram ambos vencedores. Em 1971, foi atribuído a «Meu Amor, Meu Amor», também da sua autoria, o grande prémio da Canção Discográfica. Declamador, gravou os discos «Ary Por Si Próprio» (1970), «Poesia Política» (1974), «Bandeira Comunista» (1977) e «Ary por Ary» (1979), entre outros. Publicou ainda os volumes Insofrimento In Sofrimento (1969), Fotos-Grafias (1971), Resumo (1973), As Portas que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1979) e 20 Anos de Poesia (1983). Em 1994, foi editada Obra Poética, uma colectânea das suas obras. Personalidade entusiasta e irreverente, muitos dos seus textos têm um forte tom satírico e até panfletário, anticonvencional, contribuindo decisivamente para a abertura de novas possibilidades para a música popular portuguesa. Deixou cerca de 600 textos destinados a canções.
Em seguida deixo dois poemas que adoro e que vos deixo,
Instante
“Nunca mais me lembrei que a morte vinha,
Nunca mais me lembrei que era da vida,
E que a vida me havia de vender.
E pequei,
E sonhei,
E sorri,
Sem me lembrar que a morte vinha,
Negra e cruel,
A mostrar-me a ventura que eu não tinha,
Numa taça de mel.
Nunca mais me lembrei que a morte vinha,
E ri,
E ri,
E ri perdidamente.
Nunca mais me lembrei que a morte vinha
Com suas mãos, serenas de marfim
Cerrando o meu olhar que já não via;
Nunca mais me lembrei que a morte vinha
E vivi,
Vivi, como vivem as aves e as estrelas.
Mas quando me lembrei que a morte vinha
E quando a pressenti,
Fantástica e medonha,
Com um manto todo negro
E umas asas desmedidas
A escurecerem o céu...
Mas quando me lembrei que a morte vinha,
Ah! Quando me lembrei que a morte vinha!
... Foi nesse instante que morri.”
Poeta castrado não!
“Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?! -
Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!”
Espero que gostem…
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Que triste sorriso que quê pah!? :D
ResponderEliminarSorri, sorri, porque eu bem me parecia que havia de o conhecer, nao podia era ter a certeza... mas este poema quase que ma deu :P
Olha, pra semana diz qualquer coisa pra ver se nos encontramos:)
beijinho mano*********