Numa soalheira e primaveril tarde de domingo, daquelas em que na primitiva e felicíssima democracia ateniense ninguém trabalhava (excepção clara a feita a todos os escravos e alguns outros, coitados, acidentados por terem sido tornados “a-cidadãos”), Sócrates, o filósofo ele mesmo, nem pré-socrático, nem tão pouco pós-socrático, mas sim e só socrático ele próprio, deambulava pensativo, nada dado ao esforço físico, tal como era seu (e de tantos outros) velho e gordo costume.
Pensava os números; não em formatos banais, tal como faria o mais comum dos mortais ao deslocar-se ao mercado, à mercearia, aos jogos em Olímpia ou à carpintaria. Pensava os números só pelos números: algarismos, algoritmos, estranhos quadrados com raízes, catetos de hipotenusas, enfim, contava as pérolas de ostras dos porcos ou cabeças de outras criaturas, magros minotauros, sagitários ou medusas. Tudo lá no alto, bem lá no cimo, onde só imperam as ideias, sendo o restante uma brincadeira de miúdos, sacanagens da canalha ou desvarios dos já graúdos.
Contudo, de raros tempos a tempos pouco usuais, lá o pensador se quedava de abandonar o ideal copo de cicuta que tomava logo pela ideia de manhã, para se fazer representar através da desgostosidade do seu porco corpo imundo ao mundo dos ainda mais imundos, pelo menos na sua porcaria de ideia ou, antes se diga, ideia de porcaria.
Assim, seguro e natural, se foi acercando lentamente de um daqueles “a-cidadãos” que o não viam nunca ou que, pelo menos e melhor, tinham vontades e razões para o não quererem ver e ganas diversas de o pontapear, com o básico intuito de se bater por uma nova ideia, e dizendo-lhe de rajada:
- Ouve lá, ó escravo imundo, ó rato foribundo, ó fruto nauseabundo desta democracia abissal; se eu te pedisse um número, um simplessíssimo número, começarias por que número, hã, por qual ?
Distraído com os seus afazeres, e por se encontrar de costas também, respondeu o escravo Ninoligolepis de Mileto com algum desdém:
- Se parares de falar em verso, de rima pobre e métrica curta, e pudermos ter uma conversa normal como o fazem as pessoas normais, será então normal que eu te queira e possa responder.
- Combinado! - disse Sócrates, enquanto esfregava já as mãos de grande contentamento e aprestando-se para repetir a pertinente questão:
- Por que número começas a contar?
- Por um - respondeu o escravo, abanando a cabeça em sinal de reprovação e revirando os olhos de aborrecimento.
- E se tiveres de contar dez objectos, em que número terminas a contagem? - continuou o filósofo das ideias.
- Depende. - disse trocista o escravo Ninoligolepis - São objectos reais na tua representação ideal, ou objectos ideais na minha representação real?
Agarrando suas longas barbas (essas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer) com ambas as mãos e começando a fazer pequenas tranças como forma de disfarçar o seu indisfarçável nervosismo, Sócrates sussurrou pausadamente ao ouvido do seu "não-concidadão":
- Se não respondes sem rodeios às perguntas que te estou a fazer, vais de Olímpia a Maratona sempre a bom correr, até que te saiam os pulmões pelos nós dos dedos dos pés, porque aqui na Grécia tudo pode acontecer.
- Ai isso não, mestre, isso é que não. - implorou temeroso o pobre escravo - que são quarenta e dois mil cento e sessenta e tal metros de grande sofrer. Peço-te! Bombardeia-me de novo com a tua preciosa questão.
Então, mais satisfeito, o filósofo repetiu:
- Se tiveres de contar dez objectos, em que numero terminas a contagem?
- Em dez. - disse Ninoligolépis com rápido cálculo mental.
- E se tiveres de contar cem objectos, em que número terminas a contagem? - perguntou de novo Sócrates semicerrando a pálpebra do olho direito, desviando ligeiramente a cabeça para o seu ombro esquerdo, ao mesmo tempo que impunha à boca um sorriso carregado de exagerada auto-estima e convencimento.
O bom escravo começava a impacientar-se mas, face à inumana ameaça do Mestre, lá acabou por responder:
- Em cem, mestre. Em cem.
Na cabeça de Sócrates iniciavam-se estranhos pensamentos respeitantes a tanta sabedoria contida na ideia de um escravo só, especialmente porque de um escravo fazedor de sandálias se tratava. Eram considerados os melhores trabalhadores mas também aqueles que padeciam de mais dores e dos piores odores. Horrores. Os cheiros dos suores nos cabedais enleados, as mãos calejadas e os cabelos empastados. Uns verdadeiros mal- -amados. Mas mais ainda havia de estranhar quando o escravo se lhe antecipou dizendo:
- E se eu continuar para poder contar outros cem objectos, irei prosseguir a contagem com o número cento e um, que é uma das mais belas e conhecidas capicuas.
- Ca-pi-cu-a! - silabou pausadamente o Filósofo de Atenas enquanto cofiava suas barbas e bigodes (essas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer). - Uma capicua - repetiu atónito.
Ainda rarefeito da incrível surpresa, Sócrates resolveu continuar a arreliar a mente do escravo, embora se encontrasse agora bastante renitente face à pré-concebida superioridade sentida sobre este. Resolveu, então, avançar para algarismos mais complexos, perguntando-lhe:
- Nino, - como carinhosamente gostava de chamar ao seu súbdito, quando se encontrava bem disposto ou mal disposto, variando apenas a entoação da melosidade para a ironia - Nino, em que número terminarias a dita contagem iniciada nessa lindíssima capicua de que ainda agora me falaste?
- Em duzentos ! - disse o escravo com prontidão.
Sócrates já transpirava. Ora suores frios, outras vezes chorava arrepios. Mas muito teimoso, como era de sua personalidade, resolvera não desarmar, continuando:
- Diz-me lá, se fores capaz, quantos anos tem um milénio ou dois deles juntos num conjunto?
O grego considerado socialmente de categoria menor, mas muito sábio, mantinha-se impávido e sereno, apenas exteriormente; na profundeza das suas vísceras, lá pelos espaços viscerais (e por estar a fazer saltar dos eixos todo o idealismo socrático), rejubilava. Sentia todos os outros astros que já se ouvia dizer rodarem em torno do Sol e de si mesmos, a pulularem em alvoroço dentro do seu peito e mente. Desta cósmica euforia interior, exteriorizou com facilidade a resposta a seu amo:
- Como o nome o indica, um milénio tem mil anos. Um conjunto de dois milénios, que consiste em mil mais mil anos ou mil anos vezes dois, é um conjunto de dois mil anos.
Baralhado, Sócrates encontrou apenas forças para questionar Ninoligolépis sobre em que ano se iniciaria o terceiro milénio. Já desfalecia quando, assistindo à subida triunfal para cima da mesa e ao pontapé (digno de um Eusébio) no alguidar das borras de café por parte do escravo, que comemorava assim de forma exuberante a vitória neste concurso de sabedoria, ouviu da boca deste a resposta inesperada e cantada em estilo musical Broadway:
- Em dois mil e ummmmmmmmmmmm !
Subitamente, nas costas de ambos os gregos, ouviu-se uma voz de homem, fina, introvertida, que roçava a timidez, mas apostando apaixonadamente desde logo:
- Dois mil e um, uma odisseia no espaço!
A estranha observação era proferida por Albert Einstein, físico do século vinte, laureado com o prémio Nobel dessa mesma categoria e que havia teorizado depois de muito pensar, a curvatura espacio-temporal que nos levaria a mais uma dimensão: dessas que nós comuns mortais, nunca imaginaríamos poder existir.
Posto isto, e perante a estúpida estupefacção de Sócrates, escravo das ideias e Ninoligolépis, amo das suas próprias mãos, Albert deitou a língua de fora, num momento que fotograficamente haveria de correr este mundo e os outros, apesar de a câmara fotográfica ainda não ter sido descoberta por esta altura dos campeonatos, ou melhor dizendo, das olimpíadas, ripostando:
- Estranhariam, vocês, meus pobres e caros colegas, devotados ao exercício da razão e das ideias, se como eu possuíssem a faculdade de no tempo viajar. - e aqui sentou-se e pediu aos seus compinchas que também o fizessem, para logo continuar - Veriam estranhos acontecimentos, diabólicos eventos, irracionalidades para atingir intentos; através da televisão, a vistosa comemoração, do novo milénio a chegada ou não.
Sem compreenderem bem as equações em verso e número do Alemão, reclamaram-lhe em coro, grego, caídos de queixo tocando o peito e de baba escorrendo ao umbigo:
- Explica-te melhor, ó sábio amigo, porque nos sentimos muito pequenos perante a intemporalidade da tua sabedoria.
E Einstein, com palavras mansas e de compaixão, explicou:
- Lá no ainda tão distante século vinte, em nome de uma macabra e animalesca audiência televisiva, a chegada do terceiro milénio será comemorada com um ano de antecedência. O povo comemorará, saltando em danças e lambanças, com mais vigor do que nunca e sem se aperceber que está a destronar todo um antiquíssimo calendário, sem se questionar sobre a validade do conhecimento adquirido ou, pelo menos, sobre a forma como este lhe é apresentada.
- Mas issso é uma verdadeira tragédia, meu caro Albert. - disse Sócrates horrorizado - É muito mais terrífico do que viver como este incrédulo escravo que me acompanha na democratização do mundo. Daria tema para milénios de tragédias bem inseridas na tradição grega.
- Daria, sim senhor, mas esta é Lusitana, meu amigo. É uma verdadeira tragédia à lusitana. - respondeu o laureado físico, desintegrando-se logo de seguida por um buraco negro adentro até virar à esquerda no primeiro túnel do tempo que encontrou e sem sequer se despedir. Infantilidades da genialidade.
Derreado, de joelhos, colado ao negro e vulcânico solo de Atenas, Sócrates mais não disse e mais não fez do que beber. E assim tragou, de longo penalty, toda a garrafa de cicuta que trazia sempre consigo debaixo do braço.
Ninoligolepis, completamente desinteressado do fundo intelectualóide de toda a trágica questão, varreu os restos em pó do seu outrora Mestre para o balde das borras de café (incluindo umas longas e sedosas barbas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer) e, muito livre e carregado de ganas do saber, partiu para Alexandria para ir ler qualquer coisa à biblioteca, levando consigo apenas a ideia de que se não houvesse por lá ainda nenhuma, seria de muito bom tom fundar uma.
O clima continuava ameno, tal como por toda a Grécia, especialmente nestas soalheiras e primaveris tardes de domingo.
FIM
Pensava os números; não em formatos banais, tal como faria o mais comum dos mortais ao deslocar-se ao mercado, à mercearia, aos jogos em Olímpia ou à carpintaria. Pensava os números só pelos números: algarismos, algoritmos, estranhos quadrados com raízes, catetos de hipotenusas, enfim, contava as pérolas de ostras dos porcos ou cabeças de outras criaturas, magros minotauros, sagitários ou medusas. Tudo lá no alto, bem lá no cimo, onde só imperam as ideias, sendo o restante uma brincadeira de miúdos, sacanagens da canalha ou desvarios dos já graúdos.
Contudo, de raros tempos a tempos pouco usuais, lá o pensador se quedava de abandonar o ideal copo de cicuta que tomava logo pela ideia de manhã, para se fazer representar através da desgostosidade do seu porco corpo imundo ao mundo dos ainda mais imundos, pelo menos na sua porcaria de ideia ou, antes se diga, ideia de porcaria.
Assim, seguro e natural, se foi acercando lentamente de um daqueles “a-cidadãos” que o não viam nunca ou que, pelo menos e melhor, tinham vontades e razões para o não quererem ver e ganas diversas de o pontapear, com o básico intuito de se bater por uma nova ideia, e dizendo-lhe de rajada:
- Ouve lá, ó escravo imundo, ó rato foribundo, ó fruto nauseabundo desta democracia abissal; se eu te pedisse um número, um simplessíssimo número, começarias por que número, hã, por qual ?
Distraído com os seus afazeres, e por se encontrar de costas também, respondeu o escravo Ninoligolepis de Mileto com algum desdém:
- Se parares de falar em verso, de rima pobre e métrica curta, e pudermos ter uma conversa normal como o fazem as pessoas normais, será então normal que eu te queira e possa responder.
- Combinado! - disse Sócrates, enquanto esfregava já as mãos de grande contentamento e aprestando-se para repetir a pertinente questão:
- Por que número começas a contar?
- Por um - respondeu o escravo, abanando a cabeça em sinal de reprovação e revirando os olhos de aborrecimento.
- E se tiveres de contar dez objectos, em que número terminas a contagem? - continuou o filósofo das ideias.
- Depende. - disse trocista o escravo Ninoligolepis - São objectos reais na tua representação ideal, ou objectos ideais na minha representação real?
Agarrando suas longas barbas (essas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer) com ambas as mãos e começando a fazer pequenas tranças como forma de disfarçar o seu indisfarçável nervosismo, Sócrates sussurrou pausadamente ao ouvido do seu "não-concidadão":
- Se não respondes sem rodeios às perguntas que te estou a fazer, vais de Olímpia a Maratona sempre a bom correr, até que te saiam os pulmões pelos nós dos dedos dos pés, porque aqui na Grécia tudo pode acontecer.
- Ai isso não, mestre, isso é que não. - implorou temeroso o pobre escravo - que são quarenta e dois mil cento e sessenta e tal metros de grande sofrer. Peço-te! Bombardeia-me de novo com a tua preciosa questão.
Então, mais satisfeito, o filósofo repetiu:
- Se tiveres de contar dez objectos, em que numero terminas a contagem?
- Em dez. - disse Ninoligolépis com rápido cálculo mental.
- E se tiveres de contar cem objectos, em que número terminas a contagem? - perguntou de novo Sócrates semicerrando a pálpebra do olho direito, desviando ligeiramente a cabeça para o seu ombro esquerdo, ao mesmo tempo que impunha à boca um sorriso carregado de exagerada auto-estima e convencimento.
O bom escravo começava a impacientar-se mas, face à inumana ameaça do Mestre, lá acabou por responder:
- Em cem, mestre. Em cem.
Na cabeça de Sócrates iniciavam-se estranhos pensamentos respeitantes a tanta sabedoria contida na ideia de um escravo só, especialmente porque de um escravo fazedor de sandálias se tratava. Eram considerados os melhores trabalhadores mas também aqueles que padeciam de mais dores e dos piores odores. Horrores. Os cheiros dos suores nos cabedais enleados, as mãos calejadas e os cabelos empastados. Uns verdadeiros mal- -amados. Mas mais ainda havia de estranhar quando o escravo se lhe antecipou dizendo:
- E se eu continuar para poder contar outros cem objectos, irei prosseguir a contagem com o número cento e um, que é uma das mais belas e conhecidas capicuas.
- Ca-pi-cu-a! - silabou pausadamente o Filósofo de Atenas enquanto cofiava suas barbas e bigodes (essas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer). - Uma capicua - repetiu atónito.
Ainda rarefeito da incrível surpresa, Sócrates resolveu continuar a arreliar a mente do escravo, embora se encontrasse agora bastante renitente face à pré-concebida superioridade sentida sobre este. Resolveu, então, avançar para algarismos mais complexos, perguntando-lhe:
- Nino, - como carinhosamente gostava de chamar ao seu súbdito, quando se encontrava bem disposto ou mal disposto, variando apenas a entoação da melosidade para a ironia - Nino, em que número terminarias a dita contagem iniciada nessa lindíssima capicua de que ainda agora me falaste?
- Em duzentos ! - disse o escravo com prontidão.
Sócrates já transpirava. Ora suores frios, outras vezes chorava arrepios. Mas muito teimoso, como era de sua personalidade, resolvera não desarmar, continuando:
- Diz-me lá, se fores capaz, quantos anos tem um milénio ou dois deles juntos num conjunto?
O grego considerado socialmente de categoria menor, mas muito sábio, mantinha-se impávido e sereno, apenas exteriormente; na profundeza das suas vísceras, lá pelos espaços viscerais (e por estar a fazer saltar dos eixos todo o idealismo socrático), rejubilava. Sentia todos os outros astros que já se ouvia dizer rodarem em torno do Sol e de si mesmos, a pulularem em alvoroço dentro do seu peito e mente. Desta cósmica euforia interior, exteriorizou com facilidade a resposta a seu amo:
- Como o nome o indica, um milénio tem mil anos. Um conjunto de dois milénios, que consiste em mil mais mil anos ou mil anos vezes dois, é um conjunto de dois mil anos.
Baralhado, Sócrates encontrou apenas forças para questionar Ninoligolépis sobre em que ano se iniciaria o terceiro milénio. Já desfalecia quando, assistindo à subida triunfal para cima da mesa e ao pontapé (digno de um Eusébio) no alguidar das borras de café por parte do escravo, que comemorava assim de forma exuberante a vitória neste concurso de sabedoria, ouviu da boca deste a resposta inesperada e cantada em estilo musical Broadway:
- Em dois mil e ummmmmmmmmmmm !
Subitamente, nas costas de ambos os gregos, ouviu-se uma voz de homem, fina, introvertida, que roçava a timidez, mas apostando apaixonadamente desde logo:
- Dois mil e um, uma odisseia no espaço!
A estranha observação era proferida por Albert Einstein, físico do século vinte, laureado com o prémio Nobel dessa mesma categoria e que havia teorizado depois de muito pensar, a curvatura espacio-temporal que nos levaria a mais uma dimensão: dessas que nós comuns mortais, nunca imaginaríamos poder existir.
Posto isto, e perante a estúpida estupefacção de Sócrates, escravo das ideias e Ninoligolépis, amo das suas próprias mãos, Albert deitou a língua de fora, num momento que fotograficamente haveria de correr este mundo e os outros, apesar de a câmara fotográfica ainda não ter sido descoberta por esta altura dos campeonatos, ou melhor dizendo, das olimpíadas, ripostando:
- Estranhariam, vocês, meus pobres e caros colegas, devotados ao exercício da razão e das ideias, se como eu possuíssem a faculdade de no tempo viajar. - e aqui sentou-se e pediu aos seus compinchas que também o fizessem, para logo continuar - Veriam estranhos acontecimentos, diabólicos eventos, irracionalidades para atingir intentos; através da televisão, a vistosa comemoração, do novo milénio a chegada ou não.
Sem compreenderem bem as equações em verso e número do Alemão, reclamaram-lhe em coro, grego, caídos de queixo tocando o peito e de baba escorrendo ao umbigo:
- Explica-te melhor, ó sábio amigo, porque nos sentimos muito pequenos perante a intemporalidade da tua sabedoria.
E Einstein, com palavras mansas e de compaixão, explicou:
- Lá no ainda tão distante século vinte, em nome de uma macabra e animalesca audiência televisiva, a chegada do terceiro milénio será comemorada com um ano de antecedência. O povo comemorará, saltando em danças e lambanças, com mais vigor do que nunca e sem se aperceber que está a destronar todo um antiquíssimo calendário, sem se questionar sobre a validade do conhecimento adquirido ou, pelo menos, sobre a forma como este lhe é apresentada.
- Mas issso é uma verdadeira tragédia, meu caro Albert. - disse Sócrates horrorizado - É muito mais terrífico do que viver como este incrédulo escravo que me acompanha na democratização do mundo. Daria tema para milénios de tragédias bem inseridas na tradição grega.
- Daria, sim senhor, mas esta é Lusitana, meu amigo. É uma verdadeira tragédia à lusitana. - respondeu o laureado físico, desintegrando-se logo de seguida por um buraco negro adentro até virar à esquerda no primeiro túnel do tempo que encontrou e sem sequer se despedir. Infantilidades da genialidade.
Derreado, de joelhos, colado ao negro e vulcânico solo de Atenas, Sócrates mais não disse e mais não fez do que beber. E assim tragou, de longo penalty, toda a garrafa de cicuta que trazia sempre consigo debaixo do braço.
Ninoligolepis, completamente desinteressado do fundo intelectualóide de toda a trágica questão, varreu os restos em pó do seu outrora Mestre para o balde das borras de café (incluindo umas longas e sedosas barbas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer) e, muito livre e carregado de ganas do saber, partiu para Alexandria para ir ler qualquer coisa à biblioteca, levando consigo apenas a ideia de que se não houvesse por lá ainda nenhuma, seria de muito bom tom fundar uma.
O clima continuava ameno, tal como por toda a Grécia, especialmente nestas soalheiras e primaveris tardes de domingo.
FIM

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