quarta-feira, 15 de abril de 2009

Morte

Olha lá fora,
Diz-me o que vês
Se o Sol ainda brilha,
Só mais uma vez
Faz dos teus, os meus olhos,
Pois já nao consigo ver,
Morte Ingrata,
Deixa-me viver...

Promessas perdidas
Entre sonhos irreais
Dores bem profundas
Rasgos sentimentais
a minha vida veste de negro
A cor da dor de sofrer,
Morte Ingrata,
Deixa-me viver...

Palavras d'alguem!

Um dia li nas palavras duma nova amiga:

"Nunca se esqueçam que existem 4 coisas na vida que não se recuperam:
A pedra - quando atirada;
A palavra - depois de proferida;
A ocasião - depois de perdida;
O tempo - depois de passado"

Bem haja a ti!

Ode que eu te faço

Adormeço assim numa carta de amor
entre a caneta e um pensamento,
meus dedos são gastos fosforos de dor,
se ainda teu rosto não queimo de cor,
nas letras acesas do meu alimento

Pesadelos há, na escuridão do meu traço
mais acordares no terno papel
e no arranhado senil do aparo em aço
que já flui na Ode que eu te faço
que selou no açucar, caligrafia do fel!!!

Demasiado Tarde

Se escrevesse uma letra
Sobre a vida nua e crua
Nenhuma inspiração vencia
O frio que para na rua

Escrevo, então, versos simples
Sem qualquer mote ou refrão
Palavras soltas e livres
Sem correntes nem patrão

É demasiado tarde
Para acordar,
recordar
O sentir
e o existir

Olha a vida pela lente
que tudo assim é magia
tudo muda e de repende
o sonho não larga o dia

dou-te a mão num mundo louco
que só nos o entendemos
em que a dor descansa um pouco
e o real é o que queremos

A beleza é a nossa musa
e há-de ser sempre assim
procurar a fantasia
numa aventura sem fim

A desilusão é um tabu
Que tentamos esquecer
A esperança, a essência
Que perfuma o viver

Ergo agora a bandeira
Com as cores da nossa voz
Pinto a vida à tua volta
E não a desprendo de nós

Posso até esquecer nomes
Ou coisas que vivi
Mas esquecer-te é impossível
Era esquecer-me de mim

É demasiado tarde
Para acordar,
recordar
O sentir
e o existir

domingo, 12 de abril de 2009

Parabens Sister :)

Olhem para a foto…

Vá, não parem de olhar… continuem… este sorriso é contagiante, não é?

O olhar poderoso de quem não tem medo de nada, de quem vive e revive e não perde pitada de sua vida. Pioneira, Aventureira, Corajosa, Directa, Energética, Competitiva, Dinâmica, Ousada, Impulsiva, Audaz, Independente. Olhar de quem defende que as emoções são cavalos selvagens e que a cada dia que passa nos estamos a tornar nuns atrasados emocionais, cobardes e egoísta.
Nas palavras de Pessoa se define, “Eu tenho ideias e razões, conheço a cor dos argumentos e nunca chego aos corações”.

Hoje, deixei a minha veia de escritor nas calças, pois não tenho palavras para dizer o que esta "pikena" significa para mim. Todas aquelas horas de solidão em que me acompanhou com as suas palavras, a sua incrivel capacidade de escrever o que sente, essa sua maravilhosa forma de ser.

Parabéns Ariana, não só pelo Aniversário, mas sim pela pessoa que te tornaste e principalmente aquilo que me tornaste com essa tua linda maneira de viver.

Eternamente irmãos...

(a musica não tem o teu nome, mas tu percebes o sentido da coisa)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O CROMO DOS CROMOS DO ROSSIO

Porque eu me lembro dele, porque lhe comprei cromos e porque é um cromo fixe!!!

“Está rodeado de miúdos e é difícil perceber quem está mais entusiasmado: se as crianças, se ele. Henrique Pinto tem 39 anos e nas mãos a felicidade. Ali, naquele molho, hão-de estar os cromos mais difíceis de encontrar e que ainda faltam nas cadernetas dos putos. Eles olham-se fixamente para as mãos, ele sorri com a ansiedade deles. Sabe como se sentem. Sabe tão bem como se sentem.
Henrique faz colecções de cromos desde que se conhece. E um dia, tinha uns 20 anos, começou a vende-los na baixa, ali mesmo onde ainda está hoje, à porta da Estação do Rossio. “Percebi logo que era um negócio que rendia alguma coisa… e rende. Mas é mais do que isso. Adoro ver o brilho nos olhos dos miúdos quando lhes arranjo o ultimo cromo, aquele por que esperam há tanto tempo. Por minha causa completam a caderneta, fecham aquele assunto e podem passar ao próximo”. O Cromo dos Cromos será, então, finalizador de tarefas, um especialista em acabamentos, um ponto final paragrafo.
O Vendedor vende cada cromo a 25 cêntimos. Se o assunto não for compra mas troca, o negócio é “Quatro em troca de um”. Claro que aqui há segredos. “Há números que são mais difíceis de arranjar. E esses saiem mais caro.” O valor destas raridades podem atingir fica, também ele, em segredo. “Aqui o meu colega zanga-se comigo se lhe falo de dinheiro. Não posso. Digo-lhe só que um, em 1991, um pai deu-me dois contos por um cromo que era o emblema da Ferrari. Queria mesmo acabar a colecção do miúdo e não encontrava aquele cromo em lado nenhum. Há negócios muito bons… Havia aqui há uns anos uma caderneta das bandeiras de todos os países do mundo. A mais difícil era a bandeira do Mónaco. Vendi esse cromo por bom dinheiro… e mais não digo.”
In Time Out Lisboa

terça-feira, 31 de março de 2009

Parábola de Sócrates e do Escravo Ninoligolepis em Redor de Certo Problema Vulgarmente Remetido para as Calendas Gregas

Numa soalheira e primaveril tarde de domingo, daquelas em que na primitiva e felicíssima democracia ateniense ninguém trabalhava (excepção clara a feita a todos os escravos e alguns outros, coitados, acidentados por terem sido tornados “a-cidadãos”), Sócrates, o filósofo ele mesmo, nem pré-socrático, nem tão pouco pós-socrático, mas sim e só socrático ele próprio, deambulava pensativo, nada dado ao esforço físico, tal como era seu (e de tantos outros) velho e gordo costume.

Pensava os números; não em formatos banais, tal como faria o mais comum dos mortais ao deslocar-se ao mercado, à mercearia, aos jogos em Olímpia ou à carpintaria. Pensava os números só pelos números: algarismos, algoritmos, estranhos quadrados com raízes, catetos de hipotenusas, enfim, contava as pérolas de ostras dos porcos ou cabeças de outras criaturas, magros minotauros, sagitários ou medusas. Tudo lá no alto, bem lá no cimo, onde só imperam as ideias, sendo o restante uma brincadeira de miúdos, sacanagens da canalha ou desvarios dos já graúdos.

Contudo, de raros tempos a tempos pouco usuais, lá o pensador se quedava de abandonar o ideal copo de cicuta que tomava logo pela ideia de manhã, para se fazer representar através da desgostosidade do seu porco corpo imundo ao mundo dos ainda mais imundos, pelo menos na sua porcaria de ideia ou, antes se diga, ideia de porcaria.

Assim, seguro e natural, se foi acercando lentamente de um daqueles “a-cidadãos” que o não viam nunca ou que, pelo menos e melhor, tinham vontades e razões para o não quererem ver e ganas diversas de o pontapear, com o básico intuito de se bater por uma nova ideia, e dizendo-lhe de rajada:

- Ouve lá, ó escravo imundo, ó rato foribundo, ó fruto nauseabundo desta democracia abissal; se eu te pedisse um número, um simplessíssimo número, começarias por que número, hã, por qual ?

Distraído com os seus afazeres, e por se encontrar de costas também, respondeu o escravo Ninoligolepis de Mileto com algum desdém:

- Se parares de falar em verso, de rima pobre e métrica curta, e pudermos ter uma conversa normal como o fazem as pessoas normais, será então normal que eu te queira e possa responder.

- Combinado! - disse Sócrates, enquanto esfregava já as mãos de grande contentamento e aprestando-se para repetir a pertinente questão:

- Por que número começas a contar?
- Por um - respondeu o escravo, abanando a cabeça em sinal de reprovação e revirando os olhos de aborrecimento.

- E se tiveres de contar dez objectos, em que número terminas a contagem? - continuou o filósofo das ideias.

- Depende. - disse trocista o escravo Ninoligolepis - São objectos reais na tua representação ideal, ou objectos ideais na minha representação real?

Agarrando suas longas barbas (essas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer) com ambas as mãos e começando a fazer pequenas tranças como forma de disfarçar o seu indisfarçável nervosismo, Sócrates sussurrou pausadamente ao ouvido do seu "não-concidadão":

- Se não respondes sem rodeios às perguntas que te estou a fazer, vais de Olímpia a Maratona sempre a bom correr, até que te saiam os pulmões pelos nós dos dedos dos pés, porque aqui na Grécia tudo pode acontecer.

- Ai isso não, mestre, isso é que não. - implorou temeroso o pobre escravo - que são quarenta e dois mil cento e sessenta e tal metros de grande sofrer. Peço-te! Bombardeia-me de novo com a tua preciosa questão.

Então, mais satisfeito, o filósofo repetiu:

- Se tiveres de contar dez objectos, em que numero terminas a contagem?

- Em dez. - disse Ninoligolépis com rápido cálculo mental.

- E se tiveres de contar cem objectos, em que número terminas a contagem? - perguntou de novo Sócrates semicerrando a pálpebra do olho direito, desviando ligeiramente a cabeça para o seu ombro esquerdo, ao mesmo tempo que impunha à boca um sorriso carregado de exagerada auto-estima e convencimento.

O bom escravo começava a impacientar-se mas, face à inumana ameaça do Mestre, lá acabou por responder:

- Em cem, mestre. Em cem.

Na cabeça de Sócrates iniciavam-se estranhos pensamentos respeitantes a tanta sabedoria contida na ideia de um escravo só, especialmente porque de um escravo fazedor de sandálias se tratava. Eram considerados os melhores trabalhadores mas também aqueles que padeciam de mais dores e dos piores odores. Horrores. Os cheiros dos suores nos cabedais enleados, as mãos calejadas e os cabelos empastados. Uns verdadeiros mal- -amados. Mas mais ainda havia de estranhar quando o escravo se lhe antecipou dizendo:

- E se eu continuar para poder contar outros cem objectos, irei prosseguir a contagem com o número cento e um, que é uma das mais belas e conhecidas capicuas.

- Ca-pi-cu-a! - silabou pausadamente o Filósofo de Atenas enquanto cofiava suas barbas e bigodes (essas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer). - Uma capicua - repetiu atónito.

Ainda rarefeito da incrível surpresa, Sócrates resolveu continuar a arreliar a mente do escravo, embora se encontrasse agora bastante renitente face à pré-concebida superioridade sentida sobre este. Resolveu, então, avançar para algarismos mais complexos, perguntando-lhe:

- Nino, - como carinhosamente gostava de chamar ao seu súbdito, quando se encontrava bem disposto ou mal disposto, variando apenas a entoação da melosidade para a ironia - Nino, em que número terminarias a dita contagem iniciada nessa lindíssima capicua de que ainda agora me falaste?

- Em duzentos ! - disse o escravo com prontidão.

Sócrates já transpirava. Ora suores frios, outras vezes chorava arrepios. Mas muito teimoso, como era de sua personalidade, resolvera não desarmar, continuando:

- Diz-me lá, se fores capaz, quantos anos tem um milénio ou dois deles juntos num conjunto?

O grego considerado socialmente de categoria menor, mas muito sábio, mantinha-se impávido e sereno, apenas exteriormente; na profundeza das suas vísceras, lá pelos espaços viscerais (e por estar a fazer saltar dos eixos todo o idealismo socrático), rejubilava. Sentia todos os outros astros que já se ouvia dizer rodarem em torno do Sol e de si mesmos, a pulularem em alvoroço dentro do seu peito e mente. Desta cósmica euforia interior, exteriorizou com facilidade a resposta a seu amo:

- Como o nome o indica, um milénio tem mil anos. Um conjunto de dois milénios, que consiste em mil mais mil anos ou mil anos vezes dois, é um conjunto de dois mil anos.

Baralhado, Sócrates encontrou apenas forças para questionar Ninoligolépis sobre em que ano se iniciaria o terceiro milénio. Já desfalecia quando, assistindo à subida triunfal para cima da mesa e ao pontapé (digno de um Eusébio) no alguidar das borras de café por parte do escravo, que comemorava assim de forma exuberante a vitória neste concurso de sabedoria, ouviu da boca deste a resposta inesperada e cantada em estilo musical Broadway:

- Em dois mil e ummmmmmmmmmmm !

Subitamente, nas costas de ambos os gregos, ouviu-se uma voz de homem, fina, introvertida, que roçava a timidez, mas apostando apaixonadamente desde logo:

- Dois mil e um, uma odisseia no espaço!

A estranha observação era proferida por Albert Einstein, físico do século vinte, laureado com o prémio Nobel dessa mesma categoria e que havia teorizado depois de muito pensar, a curvatura espacio-temporal que nos levaria a mais uma dimensão: dessas que nós comuns mortais, nunca imaginaríamos poder existir.

Posto isto, e perante a estúpida estupefacção de Sócrates, escravo das ideias e Ninoligolépis, amo das suas próprias mãos, Albert deitou a língua de fora, num momento que fotograficamente haveria de correr este mundo e os outros, apesar de a câmara fotográfica ainda não ter sido descoberta por esta altura dos campeonatos, ou melhor dizendo, das olimpíadas, ripostando:

- Estranhariam, vocês, meus pobres e caros colegas, devotados ao exercício da razão e das ideias, se como eu possuíssem a faculdade de no tempo viajar. - e aqui sentou-se e pediu aos seus compinchas que também o fizessem, para logo continuar - Veriam estranhos acontecimentos, diabólicos eventos, irracionalidades para atingir intentos; através da televisão, a vistosa comemoração, do novo milénio a chegada ou não.

Sem compreenderem bem as equações em verso e número do Alemão, reclamaram-lhe em coro, grego, caídos de queixo tocando o peito e de baba escorrendo ao umbigo:

- Explica-te melhor, ó sábio amigo, porque nos sentimos muito pequenos perante a intemporalidade da tua sabedoria.

E Einstein, com palavras mansas e de compaixão, explicou:

- Lá no ainda tão distante século vinte, em nome de uma macabra e animalesca audiência televisiva, a chegada do terceiro milénio será comemorada com um ano de antecedência. O povo comemorará, saltando em danças e lambanças, com mais vigor do que nunca e sem se aperceber que está a destronar todo um antiquíssimo calendário, sem se questionar sobre a validade do conhecimento adquirido ou, pelo menos, sobre a forma como este lhe é apresentada.

- Mas issso é uma verdadeira tragédia, meu caro Albert. - disse Sócrates horrorizado - É muito mais terrífico do que viver como este incrédulo escravo que me acompanha na democratização do mundo. Daria tema para milénios de tragédias bem inseridas na tradição grega.

- Daria, sim senhor, mas esta é Lusitana, meu amigo. É uma verdadeira tragédia à lusitana. - respondeu o laureado físico, desintegrando-se logo de seguida por um buraco negro adentro até virar à esquerda no primeiro túnel do tempo que encontrou e sem sequer se despedir. Infantilidades da genialidade.

Derreado, de joelhos, colado ao negro e vulcânico solo de Atenas, Sócrates mais não disse e mais não fez do que beber. E assim tragou, de longo penalty, toda a garrafa de cicuta que trazia sempre consigo debaixo do braço.

Ninoligolepis, completamente desinteressado do fundo intelectualóide de toda a trágica questão, varreu os restos em pó do seu outrora Mestre para o balde das borras de café (incluindo umas longas e sedosas barbas que ninguém garante que não as tenha nunca deixado crescer) e, muito livre e carregado de ganas do saber, partiu para Alexandria para ir ler qualquer coisa à biblioteca, levando consigo apenas a ideia de que se não houvesse por lá ainda nenhuma, seria de muito bom tom fundar uma.

O clima continuava ameno, tal como por toda a Grécia, especialmente nestas soalheiras e primaveris tardes de domingo.

FIM