sábado, 28 de março de 2009

A emergência da escarrologia como ciência

Seja no sofrido e discriminador aperto transpirado no interior duma castradora burqa, hoje recuperado em todo o seu fundamentalismo pelos talibãs cegados no orgulho islâmico, ou seja pela desmedida educação na imoralidade que conduz ao desnudar pornográfico dos corpos cotados no mercado e tão banalizada na América das falsas oportunidades de escolha, seja ainda no terror do descrédito dado à vida em nome de um ideal construído sob uma confusa miscelânea de emoções guerrilheiras extraídas duma leitura extremada do verbo do al-Kuran, ou seja na anedótica e pretensiosa vontade de condenar as mentes e os sonhos de todos os povos ao modo de vida de um império decadente que chafurda na própria imoralidade dos meios justificativos para esses podres fins que assim se tornaram na mais torta das escritas caligrafadas sobre as linhas direitas traçadas por Cristo, todas as mulheres e todos os homens deste enigmático planeta – na irresponsabilidade ou, quem sabe, na incerteza, no medo ou na avara indiferença – respiram e engolem o escarro das civilizações. Por tal facto se fez de extrema urgência clarificar algumas noções e conceitos respeitantes àquilo que é ou que pode vir a ser o escarro de hoje em dia, especialmente porque (e aqui nas paredes do jornal pégaso ou nos muros lamentáveis do resto do mundo, isso é bem visível) ele há escarros e há escarros. Assim sendo, nesta forma um pouco deformada e originalmente marginal de olhar para o mundo­, se aproveitou este triste cronista que tanto amais, da recentíssima obra do vosso conhecido Doutor Araújo Mil Acres, para o referido desmanchar de duvidosas confusões. Logo no prefácio ao livro A emergência da escarrologia como ciência, diz-nos o mais famoso escarrólogo do mundo (que por sinal é também o único) que urge a inserção da escarrologia no sistema das ciências, dado que neste ainda não existe disciplina que, situando-se por baixo das demais, digamos, na coberta do navio da cientificidade, e assim estando à margem das margens onde se pesca o conhecimento, possa fazer a distinção entre o escarro progressista e o escarro conservador. Algumas páginas ainda mais abaixo, avança-nos Mil Acres com uma breve mas iluminada trovoada conceptual: que se o escarro progressista é – apesar de toda a pestilência que o envolve – simbólico, e, por isso mesmo, apenas das esferas literárias, sendo de cunho construtivista e humanizante, já o escarro conservador é uma pasta viral que, se embrenhada na realidade do sujeito que o bebe ou cospe, desumaniza até ao tutano e destrói, tanto o sujeito cuspidor como o sujeito cuspido, ou ainda, o sujeito que é simultaneamente produtor e produto dos reais verdes cuspos. Quis o autor, adiante, teorizar estas duas noções: escreveu então que o escarro do progresso – aquele que se dado nos olhos faz ver – é de perspectiva e projecção ascendente, ou seja, o escarrólogo que o promove, tendo descido às camadas mais esgotadas da civilização (de esgoto, entenda-se), discerne perfeitamente sobre o nível de pestilência de um fenómeno, processo a que os outros cientistas não se encontram aptos. Então, adentrando sabiamente a esfera do objecto que acatarradamente já em bolores padece, ou o mata logo ali com a valente chinelada da práxis ou, pela via paternal e regeneradora, nele se envolve e, conhecendo-o agora de ginjeira, o envia ao expedidor com aviso de recepção. Este, de volta ao mundo dos vivos com a tal surpresa regeneradora, já não consegue retorquir com os escarros descendentes que outrora o caracterizavam e que, resumidamente se diga, funcionam exactamente no processo inverso ao acima descrito. Face à indubitável complexidade das revolucionárias noções apresentadas pelo Doutor Araújo, quis este vosso amigo tomar-se de exageradas liberdades e, à luz dos mais recentes escarros conservadores com que o mundo se viu empestado, exemplificar estas e abrir perspectivas para o primeiro capítulo da obra que aqui tratamos, intitulado o paradigma da pestilência. Este paradigma, aceite mundialmente por maioria na comunidade científica e vigorando na construção das leis que nos regem a todos, assim se denomina face à supremacia instituída do escarro conservador, desumano e descendente sobre o escarro progressista, construtivo e ascendente. Assim, e tão longe da inatingível verdade, se julgam estes escarros de formatos diferentes, tanto os que possuem o desenho de aeronaves e que destroem torres gémeas, como os que, transformados em mísseis de longo alcance, caem cirurgicamente em hospitais e vilas; tanto os risos felizes e as danças jubilosas face aos soterrados de Nova Iorque, como as muitas minas vendidas a África e que põem a andar numa perna só os povos a quem há já muito cortaram as duas; e tanto a plantação da papoila, o crescer do ópio e o florescer do cavalo pela montanha afegã, como a negação em reduzir os índices da poluição que não deixarão aos nossos filhos o espaço para aprenderem a plantar, saberem ver- -se a crescer ou amarem os odores do florescer. E se nos educaram, em face de fenómenos de tal pestilenta dimensão, a cegar perante as semelhanças e a desejarmos, inconscientemente, que entre eles sejam visíveis e classificáveis as diferenças que afinal não existem – apesar de terrorismo e policiamento não serem mais que nomenclaturas diferentes para um mesmo escarro – é porque o paradigma da pestilência pulula de neurónio em neurónio no cérebro do mais comum dos portadores do senso (in)comum. Mil Acres aponta ainda no final deste capítulo (e mais que isto não escreverei para que o leitor – como se tal fosse possível ! – não perca o apetite pela fenomenal obra) a alternativa ao paradigma da pestilência: o denominado paradigma do sul. E sobre este paradigma, que se quer urgentemente difundido pelo senso dos mais comuns terrestres, diz-nos o filósofo do escarro que está em formação desde o século oitavo do calendário cristão, mais propriamente com a chegada dos árabes à Península Ibérica, lá pelo ano de setecentos e onze. Esse gérmen da plausibilidade – mais ainda incrementado com as expansões e descobertas do século dezasseis – desenvolve-se na peitaça e por debaixo das unhas de alguns descendentes do velho povo lusitano: de todos os que se sabem parte da benéfica miscigenação cultural que, simultaneamente, nos pautou com a brandura das palavras e com a aspereza dos costumes; de todos os que se elevaram acima dos deuses e, com o distanciamento emocional que permite assimilar ao invés de decorar, bebem Maomé num copo de tinto e jejuam no aniversário de Cristo; de todos os que se apaixonaram pelo embalar do cante alentejano e, no arabismo desses gerúndios cantados, plantaram o alaúde de Abou Kalil em campos de algodão chicoteado e mondaram os blues do Robert Johnson na aridez das guerreiras areias árabes; de todos os que se encantaram com as letras e, agradecendo à metáfora sem políticas aduaneiras, viajaram com Sherazade pelas planícies americanas e pernoitaram mil e uma noites nos haréns do Kerouac; e de todos os que progressivamente escarram na intolerância e na incompreensão e que, se umas vezes se refrescam na coca-cola acomodando-se à túnica, noutras saboreiam os incêndios do chá trajando fato, assim fomentam o emergir deste paradigma do sul. Deste modo, apetece pedir ao mundo imundo que, antes de escarrar na própria água que bebe, pense bem a natureza da matéria peçonhenta que projecta, e possa agradecer tanto aos árabes a viagem de Aristóteles até à modernidade, como aos americanos o ideário da revolução francesa que nos fez.

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